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Desde que fiz este espaço prometi para mim que não iria dizer das coisas externas, habituais, do trabalho ou influências midiáticas atuais tais como dolos, a politicagem brasileira, a “pacificação” das comunidades do Rio de Janeiro, minhas idéias críticas sobre tantas coisas e até mesmo sobre a História de uma maneira geral. Pois o que eu realmente tento fazer aqui neste meu sítio é exercitar o meu eu que me expõe a mim e a alguns seletos leitores, é que aqui do lado de fora eu já vivo, já me entrego o suficiente à minha realidade palpável de livros historiográficos, horários e canetas, carimbos, telefones, sistemas... Mas hoje tenho que dizer que o acinzentado chumbo cobriu o céu para tantas pessoas e para mim, pois me sinto impregnada pela tristeza e empatia pelos moradores das cidades que foram atingidas pela enxurrada que levou a vida, o lar, os familiares, amigos e os sonhos e as conquistas de tantas pessoas. Gente humilde, gente que dispõe de mais condições, gente que perdeu o pai a mãe, o vô, a vó, o tio, a tia, os filhos, a esposa, o marido, gente que como muita gente e como eu mesma que acha que coisas deste modo não acontecem em seus arrabaldes, porque só vê catástrofes assim televisionadas ou pelo jornal e internet. E agora, o que fazer? Para onde ir? Existe culpado? Nesse caso, caberia aos governantes tomarem mão quanto a situações destas para antes de acontecer? Domar as forças da natureza, já elevamo-nos a esse patamar? O que virá da vida ainda é pergunta, é a espera, é o improvável. É certo que aquisições se perderam entre lamas, escombros, água suja de corrente veloz, é certo que sonhos, desejos, projeções jazem embaixo dos destroços. Alguém hoje no trabalho me disse algo como, a vida é dura menina, e é assim para nos fazer forte, mas permita-me uma consideração caro diplomata, ter extraído tudo de você, tudo, exceto a vida, como isso pode tornar alguém FORTE? Eu ainda não consigo compreender isso, seria muita ignorância da minha parte ou será mesmo que a vida assume o papel de Deus? Como na história de Jó, que toma tudo e após um grande martírio restitui seus bens. Claro que, não pretendo desta forma aludir à vida como uma compleição metafísica, é só que quem a compõe são os fulanos, sicranos, beltranos e se não me falha a memória, o fulano pouco está se lixando para a vida do beltrano, com todo o perdão da má palavra, o fato é que conheço gente, lido com muitas todos os dias o dia inteiro, e as tomo pelo seu egocentrismo, pela sua falta de empatia, pelo seu grande interesse no bem-estar do SEU umbigo e sei que nem sempre nesses momentos há comoção por parte de muitos, mas isso já é um outro assunto, qual não vou me estender. O fato é que me assusta o tamanho da perda das pessoas, a vida, e de pessoas, pessoas que perderam seus amores, suas preciosidades, tudo, a lembrança de sua casa quentinha que é ruína agora, as compras feitas na semana passada submergem junto à sua toalha ainda úmida do banho diário, seus compromissos que constam na agenda do ano de 2011 que foi enterrada pela lama, o que sobrou foi dor, DOR, amargura, o dissabor da fome que depende do alimento de filantropos para ser suprimida, a roupa do corpo. Restou o ar nos pulmões, e a vontade de viver reconstrói, eu sei, há esperança, mas eu que já tenho uma tendência às sensações dolentes penso que de uma perda tão grande e tão bruta como tal não se recupera, não totalmente, erguer-se, ir à luta são expressões fáceis, fáceis de serem ditas, pois para todos os açoitados por este episódio o que virá da vida ainda é uma pergunta, ainda é espera, incerteza, é improvável para todos eles e assim para todos nós.
Ps.: Amanhã vou fazer a minhas doações.
