E mesmo com medo fui. Sabendo que não devo me aventurar assim, fui, era óbvio o risco de ser tragada, mas ainda assim decidi me sujeitar, naveguei pelo meu mar e enfim, mergulhei no meu oceano, oceano de dentro de mim, estava claro por entre as idéias e objetivos, entre pensamentos que passam e que ficam e enfim cheguei às reminiscências, uma pobre embarcação naufragada, lugar denso, constituído por madeiras deterioradas, quebradiças, estava lá o meu baú do tesouro, achei aquelas mais empoeiradas recordações, rascunhos em papéis envelhecidos, rabiscados, descartados, contudo, muito bem dobrados. Não era dia de não dar voz, bradei então, só meu peito gritou e meu corpo consentiu em silêncio. A minha letra era outra, a minha ótica era outra, muito de mim era outro, imediatamente a sensação que tomava era álgida, a minha janela que me mostra todos os dias uma árvore de beleza tímida e despretensiosa, me exibiu montanhas, montanhas romanescas, montanhas que eu vi em outro mundo, em outra vida, em outra que era muito outra de mim...
Em dias frios era verão, um verão como noites de inverno, embaladas por cobertas florais e gosto de café quente com abraços, tudo era vivo, era colorido-dolorido, era intenso, imenso, eram flores às flores da pele, eram encontros e encontros, eram olhos e bocas em desejo singular, era mel na boca, eram trocas, trocas enamoradas, não eram dias rosa nem anil ou violeta, era uma pintura de Chagall, era La Mariee, era sonho, eram sonhos. Foi sorte, pureza e ilusão. Era e já não é. Foi e se foi. Na minha escrita da memória não constam pontos para esse conto, apenas reticências. Havia uma composição especial de que recordo a noite de sua criação, não existiam estrelas naquela escuridão, era tudo tão morno-triste e distante, e eu. Não apareciam muitos registros visíveis naquele papel, registrei na alma, lembro-me daquela noite em que na caneta jazia tinta, mas ainda havia tantas palavras a serem tingidas naquele papel velho... E continuaria a escrever em vermelho, com a tinta que jazia nas veias, dobrada estava àquela letra com um tanto mais de renúncia que as outras. Talvez uma prece enjeitada pelo Senhor Tempo, talvez uma dança de passos complexos das Senhoras Circunstâncias. Foi tudo, um tudo que se foi e não volta, um tudo que era e já não pode ser. O meu peito gritava e dói, a minha alma abandona então. Voltei à superfície, mergulhei e fiz as pazes com os mares, o mar de dentro que antes viveria de ressaca tornou-se um tapete de águas claras, ao mar de fora, me entreguei com o corpo, mergulhei com a alma. Enfim em paz com o mar que me abraça e o mar que me compõe, o baú continua guardião dos velhos e negados esboços, talvez agora em lugar mais fundo. Não sei. Sei que há paz aqui dentro, aqui fora, É verão e estou nos braços do mar que me abraça, nele eu quero mergulhar, por hora só nele.
