Ainda desconstruo nossa história, é sim, o faço. É fato que nosso ritmo é acertado, bailamos nosso perfeito descompasse de péssimos dançarinos que somos, mas meu querido, estaríamos nós ao som da mesma música? Nosso caminho é competente aos nossos alvos e em cada passo já nos espera, mas nos encontrávamos de fato trilhando-o na mesma estrada? Tê-lo tão estável e sensato tanto me valeu quando numa dessas outras de mim precisei me achar, grata sou, muitíssimo, o seu valor para mim para mim é inestimável. E saiba, eu me teria encontrado de qualquer jeito, pois, estou na abdução, no retirar-me, afastar-me, gozo dessas habilidades, infeliz destreza. E se não me achasse possivelmente iria me reinventar, de certo juntando cacos poderia fazê-lo, claro que esse é mais trabalhoso. Inegavelmente sempre estive pronta para partir de tudo e quem quer que seja, eu sei perder e abandono, me habituei à auto-suficiência, é baluarte emocional, não que eu não precise de ninguém, preciso muitíssimo, é que antes preciso muito mais de mim e me salvo em mim. E quanto àquele rótulo amor, desejo mais, anseio demais e quero tanto que meu querer é maior do que me é suportável, é um querer “inatendível” e sou Maria dos meus quereres por isso, admito transporto na minha retina, na minha íris, nas minhas pálpebras a insuficiência, sou uma freguesa de dúvidas e de fato, outrora vivi sustentada por confusões, o que sempre me levou ao chão, mas tenho aprendido a equilibrar as entregas, permito-me uma dose de leveza a cada dia, não faz mal, pois é necessário leveza para descobrir-se de si mesmo e assim se virar do avesso, somos multíplices e precisamos abraçar-nos em todas as potencialidades, despir-nos em alguns momentos das racionalidades tão atadas aos pés fincados no chão, sentir a brisa tocando a vida, e rir-se dos próprios fúteis dramas, chorar-se dos nossos infortúnios, abraçar-se com todos o braços. E vez ou outra estou aqui tropeçando novamente com o peso entranhado em meio as minhas bagagens, do adjetivo “insatisfeita” sou a única culpada e culpada do mesmo modo pelas depressões na minha estrada, sou ainda a fantasiosa moça das complexidades e translações, dona de gostos e vontades tão peculiares e, portanto, estranha à si em certos instantes, hoje, instantes esses mais breves. Mas quer saber, ainda dou razão a mim, o que se passa no interior de cada um é extremamente especial, as verdades e emoções, sonhos e concretizações, é muito particular tudo que há em nossos internos e saiba meu caríssimo não creio que de fato seja admissível que se conheça alguém até as entranhas, e eu jamais conceberia esse depravado ingresso. Sou grata por todas as vivências que me deram, as mais simbólicas foram-me dádivas, e você reside entre elas, e vivo para aprender, fui feita para acreditar, sou submissa ao tempo, ao mar que me adota, aos cheiros que fazem as chuvas, as estrelas que cintilam a noite, noite a noite que me invade ao entardecer, trazendo para dentro de mim a horas preferidas, sinto todas as emoções com tanta beleza que ouso dizer que quando dói há encanto, então é acolhedor e fecho meus olhos ingratos e recebo, aceito, me permito sofrer, arder e sarar. É puro feito criança, é transparente feito água, é como vejo, é como desejo ver, e guardo as purezas dentro de mim para refleti-las em caráter, nas atitudes que pedem a circunstâncias, em pequenos gestos, em pequenas singelezas, é o que a realidade composta de regras mal coordenadas, estagnação e preconceitos rouba-nos a cada expirar, rapta nossa a capacidade de apreciar, de dividir, habituamo-nos em um externo que nos poda, restritivo, limitado em que somos humanos por evolução e pseudo-sociáveis por condição, arcaicos e, portanto primitivos, mas esse é outro assunto sobre o qual não vou me prolongar aqui. Enfim, dou-me razão, pois, todas as minhas eus estão intrínsecas a mim, sou de pedra, sou de mar, sou de flor e sou de vento, sou de mim e moro com as buscas, exercitando-as em todos os dias. E do que de melhor tenho para oferecer meu querido, é o que sei fazer, é o que sei ser, o que sei fazer não é interessante, o que sei ser te cega, com meu sorriso amarelo e tolo de que não se faz entender, O que sou passa desses cabelos alvos e mãos pálidas e não ofereço mais porque ainda não sei como poderia, bem como não há compreensão e não se pode fazer compreender o que de fato não se consegue muito bem ilustrar e assim não há música que nos equilibre nos labirintos, tampouco silêncio que nos toque as almas, e sua íris tão sonhadora, linda e voraz me exibe olhos grandes e famintos de vida, sem muito tempo para melindrar-se, olhos de viver, olhos de agora e o daqui a pouco sejam dias coloridos ou em preto e branco, tem muita cor na sua íris para pintar a vida como bem quiser, e todas as matizes colorem no seu permissivo olhar a satisfação, a veracidade que tem o imediato, olhos seus que aprecio, olhos que desejo. Mas meu doce querido, EU estou nos cantos empoeirados da minha alma, naqueles lugares que não tem cor ou manutenção porque ainda não alcancei de fato, e lá é seu lugar de simplificar, lugar de desconhecer, seu silêncio lá ecoa e desaparece. As cores lá não tingem. Eu sei meu amor, sei que tenho um lar com abundância de afabilidade para receber e carências para preencher, mas ainda não me sinto inteira me sou em fragmentos, não estou pronta e fatalmente nunca estive. Querido da minha vida, ainda descosturo nossas bainhas tenho frio, há calor, mas não me basta ainda, porque nada me basta ainda, quero estar na mesma ciranda, na mesma busca compartilhando sonhos, realidade e afeição, E agora devo reconhecer por mim, por nós, por você estimado dono do meu bem querer, não procuro mais a chave da tua porta bonita.
[A perda dói irrefreavelmente, em lugares inimagináveis, diga-se]
[Imagem.: La Promenade - Marc Chagall]
