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Um ano a mais de vida, um ano a menos. O céu hoje é pra mim, sol tímido, nuvens escuras o embargando. Dia 28 de Dezembro, dia da esperança, respiro, renovo as projeções para a enseada do próximo ano, nesse ensejo, eu que não poupo adjetivos buliçosos ao me descrever permito-me um elogio: “Força da natureza”. E sou. Grata pela apreciação, Mas hoje é um dia triste como nunca foram os meus dias 28 do derradeiro mês do ano.
Dói. Melindro-me. Espremo-me, respiro fundo, acolhendo todas as lágrimas fujonas, ainda não cessa. Já devolvi meu coração a o seu lugar, já recolhi minhas asas e coloquei o pé no chão. Outra vez o Tempo, meu pai, em seus minutos dolentes faz latejar incansavelmente a dor que abarca todos os meus milímetros, cada ínfimo segundo se esvai sem volta. É o enigma que carrego. Uma dor de toda uma vida balizada pelo tempo. Sou um segredo, aquilo que os olhos rasantes não podem captar, uma alma subliminar feita de carne, ossos e desígnio. E pela última vez neste ano discorro aqui no meu bloquinho de anotações e transbordo.
Gosto de janelas e portas. Portas me remetem desafios, escolhas, coragem, enquanto que janelas fazem a ligação entre o “aqui dentro” e o “lá fora”, janela é lugar de acolher, janelas se parecem com braços, braços de abraço. Minha janela aberta é um convite, ao sol, a chuva, ao que vier. Entreaberta apenas para o vento cálido, pôr o narizinho lá fora, permanecendo dentro sem convites explícitos. Fechada está para o sustento do escuro, para introspecção, eu só com o silêncio e a noite das estrelas. Janelas e portas por si só trazem seu significado.
Carrego lembranças, já estive pesada, arrastando o peso das tais por onde eu fosse, pois na minha vida o passado nunca soube seu lugar, então vira e mexe sinto-me nostálgica, e de tanto me sentir doída fui deixando coisas pelo caminho, claro que em sonho, até volto para procurar, cavo e cavo fundo. Mas a lucidez de agora me lembra que é preciso enterrar de novo, nem tudo o que ficou eu preciso necessariamente trazer junto a mim, e acordo porque o caminho é longo e preciso ter pressa para trilhar, sem pesares. A minha nostalgia é diferente do que me disseram que é nostalgia. Embora esta Senhora esteja presente nas que são as mais belas palavras que conheço, verbos como esperar, compreender, amar, observar, encontrar, abraçar.
Transpirando lascívia, vou me despindo de um vestido breve de transparências negras e bordados, todo o meu corpo em um compasso perfeito. Como a quinta sinfonia de Beethoven, magnitude. Olhos intensos, pele branca, boca vermelha, cheiro de rosas, cabelos dourados, e nessa quimera, desvendando meu corpo à vista está minha alma dançando em meio a nuances. Santa. Insana. Solitária. Feroz. Alma de guardar segredos, ela de altivez e delicadeza. Alma de menina, de mulher incandescente. Que remete a sonhos, dores e flores que nascem da “força da natureza”, flores puras, alvas que nem sempre cintilantes de beleza suntuosa, mas flores de simplicidade, ingenuidade, de inocências e de verdades. E um caminho escolhido, traçado para toda uma vida, vida abrigada pela porta rústica sem fechadura e meu eu, meus eus, à beirada da janela, braços que me trazem o sol, a chuva, o vento que entra pacato trazendo-me vida, e assim eu sigo.
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