"A ESCRITA É A PINTURA DA VOZ." VOLTAIRE


Dom

*



Sou dona de certa complexidade quando se fala em sentir, trago em mim um sentimento delicado, imposto, nome? Não gosto de conferir, pode ser o que o mundo chama de consternação, bom talvez possa ser. É algo que não me sai de dentro e em suma titulo como dor, uma dor peculiar da vivência, chamo-a dor da existência, uma espécie chaga emocional. Esta é de certo um paradoxo, afável, às vezes ferino, é um anseio que me toma em desespero e é uma sorte, a palavra DOR soa aos seus ouvintes como algo ruim, remete a dor física da qual no ato desconfortável de senti-la buscamos livrar-nos dela. Mas esta sensação é intrínseca, ela não é de todo mal, reside nas expressões de seres alheios, nos registros de outrem que já decifrei essa agonia impressa, agonia que também está inerente a minh’alma, brota do lado de dentro, nas entranhas, nas profundezas, lá vive e suas oscilações geram minhas reações que me faz expelir as palavras certas. E em mim habita esse alguém de quem ás vezes não me lembro, ela que quase não vejo por aí na lembrança dos outros, essa que não se vê no espelho, sou sempre outra de mim quando penso ser aquela, não sou, vim a um mundo lúcido dada às esperanças e miragens, ilusão, fadada a trazer nos olhos a insuficiência, culpo a minha posse deste sentir único ao qual eu chamo de dom, que me suga, que pesa, que me assombra, que me enlaça, mas que me proporciona um interior de grandeza singular, é da minha essência este doer, este acreditar. E agradeço este nascimento em mim, pois é um dom e aceito. 


[É um dom. Amém]