Faltam-me as palavras por esses últimos dias e normalmente não tenho que catá-las, elas simplesmente surgem e vem colhidas na pinça. Então na tarde de ontem busquei na caixa de e-mails um documento para o trabalho, então, certo volume se fez notório, um endereço curioso e o assunto: De um admirador-teu, em breve recado ele se fez: “Você me emociona a cada post...”, imediatamente pensei naqueles relatos meus tão abandonados que se foram com o serviço de limpeza urbana, e me senti observada, isso me incomodou ao passo que me comoveu, por isso, presto-me a deixar aqui uma impressão que tive na infância ao encontrar-me com uma das mais belas obras de arte que já vi nestes anos de vida na tentativa de responder a questão levantada.
Eu era pequena, digo, mais jovem, pois a julgar pela minha estatura hoje, na minha infância eu media como um feto. Desabrochando em mim ainda uma meiga menina nos coloridos dias dos meus primeiros anos conheci um filme chamado Whatever happened to Baby Jane – O que terá acontecido a Baby Jane, um longa de excelência sob direção do mui renomado diretor Robert Aldrich, atuando nele estavam Joan Crawford como Blanche Hudson e Bette Davis como Baby Jane Hudson, um drama lançado no ano de 1962, não vou me estender aqui sobre a narrativa do filme. É uma história de fato impactante entre cenas em preto e branco perfeitamente montadas e densidade das personagens, enquanto assistia sabia que algo em mim estava sendo aguçado, sempre fui uma menina curiosa em muitos aspectos, sentir, ver, tocar, querer, era uma infante tão espoleta e ingênua como os outros do meu tempo, pés na poeira, horas eram bolas, horas eram bonecas e bicicleta, e naquela noite algo em mim foi despertado. Este é sem dúvidas um filme um tanto “pesado” para uma criança vê-lo livremente e nesse cuidado particular com a minha criança, alguém pecou, pois não era o coyote tentando raptar o papa-léguas, eram duas mulheres em vida real para mim, violentando-se mutuamente em uma realidade que naquela idade eu desconhecia totalmente. E respirei esta história, a intensidade que cada olhar lançava, a dor que cada palavra exprimia, sob uma atmosfera de peso óbvio em cada cena, o apogeu e o declínio tão acirrados, lágrimas manifestadas por ilusões sonhadas, era tão sentido, tão doído e mulheres tão ressentidas, machucadas e por isso, de uma beleza peculiar, e eu ali tão menina, tão pouca e rasa, tão submetida àquele jogo de atuações e emoções à flor da pele, uma ficção tão real para mim que reverenciei como se houvesse divindade. Eu não saberia naquela noite definir como aquele turbilhão de emoções me tocou, mas tocou, e não saberia então nesta noite de hoje definir que presente RECEBI, presente do qual jamais poderei me eximir. Então à luz desta humilde vela de chama dançante, meu caro questionador, despeço-me replicando sua pergunta: NÃO, não sei como se dá e não sei como acontece, mas acontece e dá-se assim, e esta aqui é a maneira que conheço e que sei manifestar. A verdade é que “eu sou uma pergunta”. Uma bela noite de estrelas enluaradas, o vento lá fora diz...
...Boa noite.