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“Aclarações”
Não. Não conheço essa palavra: aclarar, e sequer procurei instruir-me sobre ela, e faço muita questão de usá-la em certas ocasiões, é que “aclarar”, soa para mim como claridade, lucidez, limpidez, é como o fulgor em dia de “sunshine shining”. Sobre minha torpe escrita, é jocoso e é triste e busco entender meus ensaios que tão intensamente refletem do que sou, e tento me decompor em composições bocejantes e romanescas, esta é enfim a minha trágica tentativa de exprimir-me, ler-me. E é sempre incoerente, são exaustos excessos, é ponto, é vírgula no emprego errado, não tem coesão textual, não se apruma entre regras, porém, inegavelmente são pleonasmos, são falácias que não mudam absolutamente nada e devo dizer que de fato, não têm intenções para tal. Mas é viciosa. Vísceras expostas o que são. E por mais cansada que esteja eu, são como meus cigarros amorais, eu sinto que preciso. Então numa noite dessas, como aluna displicente entrei na sala de aula com certo atraso e desinteresse, revelo. Então uma alinhada professora passou-nos a tarefa de compor um breve texto sobre uma fotografia exibida na reportagem de um jornal, era uma criança faminta e miserável, observei atentamente por um breve instante a imagem que tomei emprestada, comovente. Logo, me vi vazia numa sala silenciosa, onde todos se concentravam a fim de propor um desfecho para uma provável história que sugeria aquela imagem tão carregada de amargura, e eu só pude pensar em mim, no meu estado de dor, meu espelho era aquela criança. Então, fugi-me para o recôndito da minha alma, lugar onde eu poderia acolher-me e acostar-me, onde eu teria cuidado para aquela ferida aberta que se achou a sangrar com este reflexo. Embora eu não tenha atendido as condições textuais para aquela tarefa, pareceu-me que houve comoção em sua recepção. Logo, penso que a dor pode às vezes encantar com sua lírica, depende de como é versada. E a minha pobre, desregrada e viciosa escrita continua a aclarar sobre mim, embora para mim seja embaçada e por isso fixa-se nela uma eloqüente interrogação. Então entorpece assim, e traz consigo emoção e vício. E acho que em cada letra o que existe de fato é consternação.
