"A ESCRITA É A PINTURA DA VOZ." VOLTAIRE


Algo sobre o perto e o longe.

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Estamos perto. Sim, faz conta que estamos perto. Permito-me por alguns instantes acreditar na existência de uma linha tênue entre a distância e a proximidade. Que faz-nos próximos uns dos outros? Eis aí um mistério para mim, outro. E por vezes me ponho a questionar o que não considero exato, embora tenha aí me estranhado com a uniformidade de determinadas coisas. E essa aqui, a eu que insiste em divagar, se põe na janela das paisagens debaixo das estrelas, há um tipo de dança de raios nos confins do horizonte, é bonito e não me cansa porque é vazio, é aquele vazio que não me cansa, que me descansa. São apenas despretensiosas rajadas de luz. Passaram. E essas janelas minhas, todas minhas desse transporte rústico e barulhento me colocam em meio a um paradoxo qual não me lembro de ter questionado. Agora sou caçadora do meu caminho para casa na estrada tão escura, e quando a glória dessa caçadora se perpetrar sobre sua cabeça entre portas, janelas estáticas e paredes acolhedoras do lar, em casa estou longe do meu querer mais profundo e inadmissível, e estou tão perto do vazio assim. No universo em que sou meu mundo não existe o perto, o verbo aproximar é utópico, porque se tudo é mar, eu sou escafandro. Impenetrável. E a cada mergulho nas minhas profundezas se consolida mais essa certeza de que nunca ninguém me desvendaria por inteira, e assim, talvez nem eu, uma vez que, para ninguém SOU interessante, pois para mim sempre terei uma fatídica pergunta, porque minha alma também é uma pergunta, como bem disse Clarice. E por isso, permito-me uma breve colocação ao Senhor Tempo: Que ironia desleal esta de todas as noites, estar sob o mesmo céu, contemplando às mesmas estrelas, tão perto da mesma lua, tão longe dos mesmos olhos, tão perto do que se foi, tão longe do que poderia ser.