Semelhantemente diferentes aqueles mundos eram. Existia ele e existia ela, ela era sutilmente livre de idéias pré-fabricadas e portava pouquíssima argúcia para os dias e o lugar em que residia, dispunha de uma postura delicadamente peculiar, combinando provincianismo e um pouco de prudência, ela caminhava sobre a vida trazendo consigo marcas na alma, ingenuidades e purezas em tons pastéis e é claro, suas palavras sensíveis. Ele adotava uma atitude bastante característica, essa era tomada por sua intensidade, sabe-se pouco sobre sua bagagem, mas é crível que ele tinha em sua essência segredos a serem desvendados, estava lá ele deslizando pela existência com livre-arbítrio, fragilidades e violão. Ela nunca tinha sido tocada em suas profundezas e vamos por hora pensar que ele também não. Ele era um mundo inteiro naquele universo onde habitava o mundo dela também, ela nunca apreciou verdades absolutas, antes, nunca de fato admitiu alguma, já absoluto para ele era uma palavra invariável unicamente em se tratando de abstratos e sentires. E numa tarde qualquer de inverno o Senhor Acaso, tão imprevisível quanto incorruptível casualmente preparou-os uma doce cilada, um convite improvável foi benquisto, então como se fosse possível as horas daquela tarde desligaram, encontrar-se-iam ela e ele em um tempo e espaço consentido pelo transcender em cenário ímpar colorido suntuosamente e especialmente para aquele encontro, e naquela fenda do tempo perceberam-se, conheciam-se, pertenciam-se e em algum momento daquela incidência aleatória trombaram-se mundos tão díspares tornando-se um par, entenderam-se, precisavam-se. Logo todos os acontecimentos posteriores apenas reafirmaram algo que mais para ela do que para ele foi claro naquela tarde em que a hora rachou no tempo repartindo a vida dela a partir daquele encontro, não era apenas devaneio, era um ENCONTRO DE ALMAS e não poderia existir em qualquer universo nada equiparado àquilo. Não haveria palavras tão completas para narrar aquele evento, tudo após aquele encontro de repente tornar-se-ia mais acalorado, o pôr-do-sol estaria mais dourado, a árvores bailariam sorridentes ao sabor de uma brisa fresca, levíssima, a lua e as estrelas estariam disseminando mais fulgor do que se pode imaginar, quase ofuscando os olhos humanos, mas aquecendo seus corações, os bálsamos das flores de inverno passeariam por entre os rostos de todo e qualquer amante residente neste mundo levando paz, abraços e assim mais calor para o frio daquela estação. Tudo finalmente estaria em harmonia porque no mundo, naquele mundo dela havia uma casa, ele se tornara seu lar e para ela naquela vida existiria um lar e enfim conheceria o caminho qual tanto se ouviu falar, o caminho para casa. Haveria açúcar para um café quentinho, e brisa leve atraída pela grande janela ostensiva de paisagens, haveria também um ninho modesto para a consumação daquele amor, e guarda-chuva para as tempestades, e sorte, sim, haveria um grande jardim de trevos de quatro folhas, Ela com certeza descobrira seu lugar. A partir daquele presente concebido pelo tempo, todos os seus próximos dias receberam nova beleza com gosto delirante, quase gosto de flor, e era doce e era delicado e só poderia ser, pois, era pleno e era tudo, ela teria finalmente sido tocada na alma por completo, estava inteira, estavam inteiros. Contudo, mesmo para aquele ensejo magnânimo e permissivo que vivenciavam, a generosidade da avessa estação era exilada pela sede de seus quereres, queriam-se irrefreavelmente, tinham urgência por qualquer ínfimo instante, e esse era consagrado numa quimera em que a menor imperfeição era perfeita, logo, uma perfeita tragédia, a união desses distantes mundos foi de fato um doce desastre. E como para tudo o fim vem, é obra do tempo, o finito tempo chegou para aquela estória dona de singularidade incomum, um tempo aquém do desejado, pode-se dizer. Aquelas almas perderam-se e jamais voltariam a se encontrar, pois só uma fissura no tempo os permitiria um nostálgico abraço, um utópico abraço. Assim, restaram marcas naqueles dois ímpares, evidente que aquela colisão deixaria cicatrizes, estigmas talvez de esperança ou quem sabe apenas de dor, perda. Deu-se esta que de fato poderia desritmar toda aquela cadência de um doce encontro que nunca mais se repetira neste tempo e nessa vida, esta veio brusca, sem clemência ou pudor, atrevida e ríspida, a REALIDADE, e com ela o fim. E fim.

