Nos derradeiros dias dessa estação álgida pela qual tanto sou deslumbrada, que em todos os anos me traz novas mudanças e perspectivas, gostaria de registrar aqui nessa despedida que esse inverno me foi muitíssimo tocante em mil sentidos à flor da pele, e por ele me impulsiono a falar de SONHO. Sonho soa doce, fala doce, sonho soa gordinho, fofo, uma bela ilustração a essa sonância seria um modesto algodão doce em polaróide desbotada. Enfim, hoje resolvi esboçar aqui sobre meus sonhos tolos, aqueles que comumente não concentramos muita importância apenas porque são esses dourados demais, são quereres vastos ou mesmo volúveis, e assim sem de quê, não contenho essa vontade boba de compartir desses devaneios e passos que provavelmente nunca darei. Gosto das minhas vontades longínquas ficam lá naquele bauzinho velhinho que olho de vez em quando, remexo e suspiro...
Eu queria muito morar numa cidadezinha provinciana do interior de Minas Gerais, mas eu queria uma específica que conciliasse frio, campo e também acessos fáceis da dinâmica do dia-a-dia. Por quê? Não sei exatamente, creio que seja bem lá fundo por acreditar naquela atmosfera pueril de lugar simples, lugar em que as pessoas são verdadeiramente receptivas de portas rústicas e coração, de singeleza e alma branca, lugar em que o cheiro de frio, mato e montanha se misture exalando o prazer pela vida, (talvez certo gosto pelo verbo aproximar...) E que quanto mais frio é mais dá vontade de aquecer, de aconchegar, aproximar (verbo que amo), lugar em que o café sai fresquinho da chaleira com gosto de céu, lugar de espontaneidades, de sorrisos leves e sono bom, lugar em que o vento acaricia a pele, abraça a alma. Às vistas as montanhas mais romanescas do mundo inteiro e as tais translumbram entorpecendo todo o meu ser em todos os entardeceres que me forem concedidos pelo céu. Queria morar numa casa justa para mim e meus quereres, com utensílios antiguinhos e conforto, claro, e uma janela só para eu e a lua trocarmos olhares e falar de nossas inquietações queria de fato ter espaço para acomodar cada bocado de mim, essas eus todas que não se entendem, que adolescem dia após dia dentro e se matam noite após noite fora. Encasacar-me e sair no anoitecer mais brilhoso que pudessem as estrelas me presentear, e assim despudoradamente eu as beijaria sem reservas apenas porque elas existem enfeitando o grande mar de céu que todos no mundo têm. (o céu é uma poesia pronta.) Queria também germinar um amor que muito me chegasse a todos os sentidos, um que não nascesse no coração, ele brotaria na alma, seríamos namorados, amigos, cônjuges, eu e ele, duas crianças loucamente apaixonadas de olhos, corpo e vida, entregues sem restrições um para o outro, dois amantes baratos e indecentes, (sem perdões, pois para mim não existe mais essa coisa de “má palavra”) nós atravessaríamos por sobre o que nos venha atravancar o caminho, pois esse amor seria transcendente, e cúmplices acima de tudo e todos, pois nossas singularidades não nos impediriam de ser um plural de completos. Amor, lascívia, ardor, querer, fulgor, mais intensidade e encanto, mais colo, mais embriaguez, mais vivacidade e fracos os joelhos, mais arrepios e olhos se despindo, se devorando, mais expressão, mais alma. Um amar fatal, esse seria um amor fatal. E sonho. Sonho em registrar um livro, andar pelo mundo, ir a Paris e fotografar tantas paisagens. E queria ter mais saúde, intensidade, beleza, cautela. Queria ser uma pessoa melhor, aprender todo dia e aceitar mais, ser mais simples, magnânima, doce, mais charmosa, e parar de me render ao medo, sopesar melhor as minhas atitudes. Queria o reino da benevolência e de paz, mais realizações e calma, mais contentamento... E o que eu mais queria hoje ou em qualquer estação era desatar o tempo e conseguir organizar boa parte de mim nas minhas profundezas, para que essas últimas vontades de SER não morassem no bauzinho velhinho junto a sonhos tão dourados, queria me achar tão melhor do que sou. EU SEI que tenho um paraíso bem dentro de mim e tento achar, isso algo que venho buscando anos a fio, desde que me entendo, mas ainda conjugo um verbo dolorido: eu não consigo.
